Programa de Festas

Março 18, 2010

Casimiro de Brito – intervalo para um poema

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Deito-me a teu lado. Sou a tua sombra
no lençol. Vou decifrar a luz dos teus olhos,
não me dás tempo. Os teus dedos tocam-me no rosto,
descem à garganta, começam a soletrar
o mapa do meu corpo: um grão sob a axila, uma pálpebra
que cintila, o rubor do mamilo
e já teus dentes se ocupam
do outro. Pressionas músculos e ossos
ao mesmo tempo que toco ao de leve
um seio, um lábio: quero deter-me no joelho
onde leio quedas na neve
e no ballet. Não me dás tempo.
Os corpos rodam, as mãos buscam outra terra,
outras águas. Os seios na virilha,
a barriga no pescoço. Estaremos a caminhar
demasiado depressa? Acaricias onde prometo
uma haste de sol. Uma casa voadora
na margem deste mundo tão previsível.
Erigimos com os nossos corpos
a mais efémera das esculturas. As tuas mãos
convidam-me a voar. Agora sou eu
quem não te dá tempo, escavando e descendo
à fenda silenciosa. Ouço-a. Um canto leve
e depois allegro e depois mais fundo.
Já não sei onde estou, quem sou
sobre as fontes e os rios e os abismos
de ti. Sentas-te, lama delicada, no meu peito
e desces e ajustas os teus ninhos
ao pequeno pássaro que pouco a pouco
se agita. Palpo e bebo e retenho a terra volátil.
a espuma, a vegetação de coxas, nádegas, mamas e águas
flutuantes. Ora subo ao chão ora me enterro
no ar, no lábio onde começa uma árvore
que se eleva até às nuvens. Não me dás tempo,
eu quero a eternidade mas tu não me dás tempo
para te contemplar. Ânfora nua
que bebo por fora e por dentro.
Dou-te a minha vida em troca da tua.

Novembro 20, 2008

Casimiro de Brito – 50 anos de escrita

 

Casimiro de Brito veio a Faro sem a companhia de seu amigo e seu irmão nas letras, António Ramos Rosa; mas o poeta que sabe como bate o coração esteve entre nós, na biblioteca que recebeu o seu nome e onde a sua voz se fez ouvir, na voz de outros que a tomaram como sua.

É assim que a poesia acontece.

Coube a José Carlos Barros, meu estimado amigo, a responsabilidade pela apresentação desta última publicação de Casimiro de Brito, numa edição de 4Águas Editora, sob a direcção de Fernando Esteves Pinto, que também conto como bom amigo, e do seu sócio neste projecto editorial, Vítor Cardeira.

Já em Abril de 2007 José Carlos Barros tinha apresentado um outro trabalho de Casimiro de Brito, dessa feita na Biblioteca de Loulé. É para esse texto que vos remeto , evitando alongar este post, que está mesmo a precisar de um poema para que se cumpra.

A luz trocada em olhos que ficaram
subitamente cegos, e depois as palavras,
cautelosas, dizendo a seda
dos corpos sós. O desejo
foi polindo em silêncio
um fruto em busca da sua maturação.
A teu lado me deito e bebo a água
que tu me abres
e onde me perco e ardo e tudo.
Aqui tens o meu corpo cheio de mundo.
Amar-te é viagem que não se acaba
e contigo vou, para o alto
e para o fundo.

Casimiro de Brito
69 Poemas de Amor
4Águas Editora, Tavira 2008

Já tinhamos escrito aqui sobre  este “encontro”.

Mas este texto, integral, do Local & Blogal, é irresistível.

 

Local & Blogal

Novembro 15, 2008

Homenagem a António Ramos Rosa e Casimiro de Brito

Sou nómada e basta-me
Beber a água que vem da montanha
E olhar a mica do céu onde se reflectem
As mutações da Coisa — o pó
Que nela pousa. A teia do conhecimento
Está podre e não vou
Deitar-me nela. Escrevo porque sou um arco
Que vai acumulando alguns restos
Alguma dor algum vento perfumado
E subitamente dispara. Cinza. Palavras
Que não têm deuses nem brilho nem nada.

Da frágil sabedoria – 2001

Dia 19 de Novembro, às 21h30

Lançamento do livro “69 poemas de amor”, da autoria de Casimiro de
Brito

– Sessão de poesia em torno da obra destes dois poetas, por Afonso Dias
e Tânia Silva ( ver
este site)

 A Biblioteca Municipal António Ramos Rosa situa-se em Faro, na Rua Carlos Porfírio -Telef. 289897500

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