Programa de Festas

Outubro 14, 2008

Herberto Helder publica novo livro, “A Faca não Corta o Fogo”

Filed under: poesia — profestas @ 10:48 pm
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Engoli
água. Profundamente: — a água estancada no ar.
Uma estrela materna.
E estou aqui devorado pelo meu soluço,
leve da minha cara.
O copo feito de estrela. A água com tanta força
no copo. Tenho as unhas negras.
Agarro nesse copo, bebo por essa estrela.
Sou inocente, vago, fremente, potente,
tumefacto.
A iluminação que a água parada faz em mim
das mãos à boca.
Entro nos sítios amplos.
— O poder de reluzir em mim um alimento
ignoto; a cara
se a roça a mão sombria, acima
da camisa inchada pelo sangue,
abaixo do cabelo enxuto à lua. Engoli
água. A mãe e a criança demoníaca
estavam sentadas na pedra vermelha.
Engoli
água profunda.

Herberto Hélder (de seu nome completo Herberto Hélder de Oliveira) nasceu no Funchal, ilha da Madeira, no dia 23 de Novembro de 1930. Frequentou a Faculdade de Letras de Lisboa, tendo trabalhado em Lisboa como jornalista, bibliotecário, tradutor e apresentador de programas de rádio. Começou desde cedo a escrever poesia, colaborando em várias publicações de que se destacam: Graal, Cadernos do Meio-Dia, Pirâmide, Poesia Experimental (1 e 2), Hidra e Nova. É um dos introdutores do movimento surrealista em Portugal nos anos cinquenta, de que mais tarde se viria a afastar.

Obras: Poesia – O Amor em Visita (1958), A Colher na Boca (1961), Poemacto (1961), Retrato em Movimento (1967), O Bebedor Nocturno (1968), Vocação Animal (1971), Cobra (1977), O Corpo o Luxo a Obra (1978), Photomaton & Vox (1979), Flash (1980), A Cabeça entre as Mãos (1982), As Magias (1987), Última Ciência (1988), Do Mundo, (1994), Poesia Toda (1º vol. de 1953 a 1966; 2º vol. de 1963 a 1971) (1973), Poesia Toda (1ª ed. em 1981). Ficção – Os Passos em Volta (1963).

«¡Intelijencia, dame / el nombre exacto de las cosas!
… Que mi palabra sea / la cosa misma,
creada por mi alma nuevamente […]»
Juan RAMÓN JIMÉNEZ

O livro não será reeditado “porque Herberto Helder não reedita. Quando muito existirá, talvez mais tarde, um novo livro que acrescente algo a estes poemas, como este volume faz com poemas já anteriormente publicados. É o poema contínuo”, disse Luís Guerra, da Assírio e Alvim.

“Estávamos à espera disto porque os novos poemas deste livro são muito fortes. Existia uma grande expectativa que a saída do livro não frustrou”, disse ainda Luís Guerra, que também revelou ter recebido, desde quinta-feira, inúmeros pedidos de várias livrarias de todo o país.

“A Faca Não Corta o Fogo – súmula e inédita” teve uma tiragem de 3000 exemplares e já só existem os que se encontram à venda nas livrarias.

Durante o fim-de-semana, a crítica literária nacional foi unânime no aplauso ao mais recente livro de Herberto Helder.

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3 comentários »

  1. Que comentário me pode merecer uma ponta do véu, mas que denota um espírito poético ,se por um lado nada fácil à primeira vista, por outro lado julgo que só se para de ler quando se atinge o fim do livro. Muito gostava de possuir um exemplar já que se encontra esgotado e não é de admirar.

    Comentar por Vitor josé Salazar — Dezembro 3, 2008 @ 6:34 pm | Responder

  2. Também quereríamos ter, quem sabe se um dia haverá vontade de o reeditar?

    Saudações

    Fernanda Guadalupe

    Comentar por Dionisio Leitão — Dezembro 3, 2008 @ 7:53 pm | Responder

  3. CHAMAS TRANSPARENTES (para Herberto Hélder)

    falas de mulheres. de faces rosadas,
    de mães e de gotas de água. de
    batentes em semblantes sem tempo.
    de fios umbilicais e de amor.
    somente! sem nada por dentro.

    falas de naturezas intrínsecas e
    de imagens que alimentam. o informe!
    de coisas mais altas. de pálpebras que
    levitam em escafandros interiores. de
    poços de petróleo invasores.

    falas de orvalhos em flechas.
    de pêlos sedosos e de ervas abertas. de
    morte em pétalas puras. extasiadas.
    de espinhos em cantos frios.
    distantes e sozinhos. ou mudos!

    falas de lembrança. em tudo!
    de carne feroz em cítaras descidas. de
    folhas inspiradoras como páginas brancas.
    em estios enormes. recuados. inteiros.
    em superlativos antigos.

    falas de ausências deslocadas. de
    sumptuosos vestidos em bailes sonhados.
    de danças sem partitura. de breves
    infâncias e titânicas investiduras.
    de limalhas em artérias. absortas!

    falas de pedregulhos púrpura. de
    trevas escorregadias em idades sufocadas.
    de uns tantos vivos em léxico. desnudos!
    ao largo da fronteira da inspiração oca
    curta. em luz de estações fluviais.

    falas de meteoros.
    (são belos os espasmos da criação!)
    e também de cometas.
    (são arados! que tratam do campo de estrelas.
    resquícios do caos primordial, onde
    apenas se manifesta autêntica liberdade).

    falas de actos absolutos. mas
    não existe absoluto. só evolução!

    e falas de teorias.
    todas o são. sem dúvida!

    porém, a verdade é esta:
    o universo nasceu para sucumbir!
    toda a energia se esgota.
    toda a vida deixa de o ser.
    o milagre é a multiplicação das formas.
    enquanto é. ou for. pois outra das certezas é
    que o tempo não é humano.
    só aqui reside a dádiva dos desígnios. maiores!

    e no cânone?
    apenas chamas transparentes.
    realmente, a faca não corta o fogo.
    só a mão que a empunha o faz!

    eu?
    falo-te dum simples abraço.

    Vicente Ferreira da Silva in Odes & Homenagens

    Comentar por VFS — Março 27, 2009 @ 3:26 am | Responder


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